Não sei como eu consigo me meter em tanta furada. Acho que é um dom.
Observação importante: para entender melhor este post, leia o de título INDIANOS – PARTE 2, logo abaixo.
Quando eu estou de folga, eu sempre acabo indo para o mesmo lugar (o preferido): Camden Town. Dessa vez fui decidida a deixar de ser casquinha e fazer pelo menos uma compra. Escolhi o alvo: uma manta. O problema é que, como já citei no outro post, indianos são os atendentes das lojas. Mas, por incrível que pareça, o vendedor não era um deles. Conseguia ser pior. Acho que era uma espécie de Bangladesh da vida, desses que usam um chapeuzinho ridículo na cabeça e acham que estão abalando.
Vi uma placa na entrada da loja: CLOSING DOWN – SALE.
Quando se vê isso na porta do estabelecimento é um bom sinal, liquidação total da loja inteira.
“Oba“, pensei, “vou comprar a manta por um precinho camarada“.
Perguntei ao simpático vendedor com cara de não-como-ninguém-desde-meus-doze-anos quanto era o produto. Eis que escuto do próprio:
- Oito libras.
Fiz uma cara de espanto.
- OITO??? A loja não tá em liquidação? (meu espanto foi pelo fato de que, normalmente, essa manta custa 3 libras).
O safado respondeu:
- Está. A manta era dez, agora é oito.
Ele, vendo a minha cara de não-gasto-oito-libras-numa-manta, deu uma de espertinho:
- Tá bom, pra ti eu faço sete.
Acho que ele ficou esperando que a minha reação fosse pular em cima dele e agradecer a Alah e mais todos os deuses que podem ser da religião dele por ter me feito um desconto TÃO grande. Entusiasmado ainda em me ver reagir, ele me solta:
- Seis libras e não se fala mais nisso. E ainda ganha massagem grátis! – dando um apertão no meu ombro.
Pensei comigo “ok, isso está ficando bizarro“. Disfarcei e fui olhar as camisetas.
- Se tu levar uma camiseta, faço por 12 libras os dois.
Só faltou um “não é demais, amigam?” no final da frase. E aí vem a velha história da impaciência desta raça, querendo que eu decida logo o que vou fazer da vida. Depois de perguntar oito vezes qual o tamanho e qual o modelo de camiseta que eu levaria, o rapaz foi se irritando cada vez mais. E eu, só respondendo
- I’m not sure yet.
Meus amigos, vendo o que estava acontecendo, me aconselharam a procurar a mesma manta em outra loja, por que o cara não estava sendo nada amigável e parecia querer me bater, além de estar me metralhando com os olhos. Resolvi seguir o conselho deles, coloquei a manta de volta no lugar e, muito educada, falei:
- I’ll be right back to get this, ok?
A resposta foi inesquecível e dolorida:
- Don’t come back. I don’t wanna see you again.
Tipo assim, foi um tom de “está tudo terminado entre nós. Vá embora e não volte. Não te amo mais“.
Eu falo e ninguém acredita.
Não é preconceito, é realismo.
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